Como um anestésico consegue bloquear a dor durante uma cirurgia?

Um anestésico consegue bloquear a dor porque interrompe ou reduz a transmissão dos sinais nervosos que levam informações de dor dos tecidos até o cérebro.

O processo básico é:

estímulo doloroso → ativação dos nervos → anestésico interfere na transmissão → sinal não chega adequadamente ao cérebro → percepção da dor é reduzida ou eliminada

O que é a dor?

A dor começa quando determinados receptores sensoriais, chamados nociceptores, detectam estímulos potencialmente prejudiciais, como:

Esses receptores transformam o estímulo em sinais elétricos que podem ser conduzidos pelos nervos.

Como o sinal de dor chega ao cérebro?

Quando um nociceptor é ativado, ocorre uma alteração elétrica na membrana da célula nervosa.

Se o estímulo for suficiente, essa alteração gera um potencial de ação, que percorre o neurônio.

O sinal segue por fibras nervosas até a medula espinhal e, posteriormente, por outras vias até regiões do cérebro envolvidas na percepção da dor.

É no cérebro que a atividade dessas vias é interpretada como uma experiência consciente de dor.

Onde o anestésico interfere?

Depende do tipo de anestesia.

Um anestésico pode atuar:

O objetivo é impedir que os sinais dolorosos sejam transmitidos ou que sejam percebidos conscientemente.

Como um anestésico local bloqueia um nervo?

Muitos anestésicos locais, como a lidocaína, atuam principalmente bloqueando canais de sódio dependentes de voltagem presentes na membrana dos neurônios.

Esses canais são fundamentais para a geração e propagação do potencial de ação.

Quando são bloqueados, o neurônio não consegue conduzir normalmente o sinal elétrico.

Consequentemente, o estímulo doloroso produzido na região anestesiada não consegue chegar adequadamente ao sistema nervoso central.

Por que bloquear o sódio impede o sinal de avançar?

Durante um potencial de ação, canais de sódio se abrem e permitem a entrada de íons sódio na célula.

Essa entrada modifica rapidamente a voltagem da membrana.

A alteração elétrica desencadeia a abertura de canais em regiões vizinhas, fazendo o sinal avançar ao longo do nervo.

Se os canais necessários forem bloqueados, essa sequência é interrompida.

O estímulo pode continuar existindo no tecido, mas o nervo não consegue transmitir normalmente a informação.

O anestésico destrói o nervo?

Normalmente, não.

O anestésico local bloqueia temporariamente a atividade dos canais envolvidos na condução nervosa.

Depois que a concentração do medicamento diminui, os canais recuperam sua função e a transmissão dos sinais retorna.

É por isso que a região anestesiada volta gradualmente a sentir depois de determinado período.

Por que a pessoa pode sentir pressão mesmo sem sentir dor?

A anestesia não necessariamente elimina todas as formas de sensação na mesma intensidade.

Dependendo do medicamento, da concentração e da técnica utilizada, diferentes tipos de fibras nervosas podem ser bloqueados em graus diferentes.

Assim, uma pessoa pode perceber:

mesmo que a sensação dolorosa esteja fortemente reduzida ou ausente.

Por que a anestesia local deixa a região "dormente"?

Porque não bloqueia apenas a transmissão dos sinais de dor.

Dependendo da dose e do nervo atingido, também pode reduzir temporariamente outras modalidades sensoriais.

É por isso que uma região anestesiada pode parecer:

Por que a anestesia no dentista funciona tão bem?

O dentista aplica o anestésico próximo aos nervos que transmitem informações sensoriais da região da boca e dos dentes.

O medicamento bloqueia a condução desses nervos.

Assim, mesmo que procedimentos como perfuração ou extração produzam estímulos mecânicos intensos nos tecidos, os sinais dolorosos não são transmitidos normalmente ao cérebro.

O que acontece na anestesia epidural?

Na anestesia epidural, o medicamento é administrado no espaço epidural, próximo às estruturas nervosas que saem da medula espinhal.

O anestésico pode bloquear temporariamente a transmissão de sinais provenientes de determinadas regiões do corpo.

Por isso, pode produzir perda de sensibilidade e redução da dor principalmente na parte inferior do corpo, dependendo da região e da técnica utilizadas.

E na anestesia raquidiana?

Na anestesia raquidiana, o anestésico é administrado no líquido cefalorraquidiano, no espaço subaracnoideo.

O medicamento entra em contato mais diretamente com as raízes nervosas.

Isso produz um bloqueio sensitivo e, dependendo da dose e da distribuição, também pode causar bloqueio motor temporário.

Como funciona a anestesia geral?

A anestesia geral é diferente da anestesia local.

Em vez de bloquear apenas um nervo específico, os medicamentos utilizados na anestesia geral alteram a atividade de redes neurais no cérebro e em outras regiões do sistema nervoso.

Isso pode produzir:

Os mecanismos variam conforme os medicamentos utilizados.

A pessoa dorme simplesmente porque o cérebro é desligado?

Não exatamente.

A anestesia geral não equivale ao sono normal.

Os medicamentos alteram a comunicação entre diferentes circuitos cerebrais e modificam a atividade de redes responsáveis pela consciência, percepção, memória e resposta aos estímulos.

O estado produzido é farmacologicamente controlado e diferente do sono fisiológico.

Se o cérebro não receber o sinal de dor, a lesão deixa de existir?

Não.

O anestésico não impede necessariamente que o tecido seja lesionado ou estimulado.

Ele interfere principalmente na transmissão e na percepção do sinal.

Por isso, durante uma cirurgia, o procedimento continua produzindo alterações físicas nos tecidos, mas os sinais dolorosos são bloqueados ou reduzidos conforme o tipo de anestesia utilizada.

Por que a anestesia precisa ser aplicada antes da cirurgia?

Porque o bloqueio precisa estar estabelecido quando o procedimento começa.

Se os nervos estiverem transmitindo normalmente no momento do corte ou de outro estímulo cirúrgico, os sinais de dor podem alcançar o sistema nervoso central.

Por isso, a equipe verifica o efeito da anestesia antes de iniciar determinadas etapas do procedimento.

Por que a anestesia pode parar de funcionar?

No caso dos anestésicos locais, o bloqueio diminui à medida que o medicamento é distribuído, metabolizado e eliminado pelo organismo.

A concentração próxima aos nervos cai progressivamente.

Quando deixa de ser suficiente para bloquear os canais de sódio, a condução nervosa retorna.

Por que a duração da anestesia varia?

A duração depende de vários fatores, incluindo:

Alguns medicamentos possuem ação relativamente curta, enquanto outros permanecem atuando por mais tempo.

Por que a anestesia não bloqueia necessariamente todos os nervos?

Os nervos possuem diferentes características e podem responder de maneira diferente aos anestésicos.

Além disso, a concentração do medicamento não é igual em todas as regiões.

A técnica de aplicação também determina quais nervos entram em contato com uma quantidade suficiente do anestésico para serem bloqueados.

O anestésico pode afetar os músculos?

Sim.

Os mesmos nervos que transmitem informações sensoriais também podem participar do controle muscular.

Dependendo do tipo e da intensidade do bloqueio, a condução dos nervos motores também pode ser reduzida.

É por isso que determinadas anestesias regionais podem provocar fraqueza ou perda temporária de movimento em uma parte do corpo.

Por que a sensação volta aos poucos?

O bloqueio não desaparece necessariamente de uma vez.

À medida que a concentração do anestésico diminui, diferentes fibras nervosas podem recuperar sua capacidade de transmitir sinais em momentos diferentes.

Assim, a sensação pode retornar gradualmente, começando com algumas percepções e terminando com a recuperação completa da sensibilidade.

Em resumo

O processo pode ser entendido assim:

1. A cirurgia produz estímulos nos tecidos.

2. Nociceptores detectam esses estímulos e ativam os nervos.

3. O sinal doloroso normalmente seria conduzido por potenciais de ação até o sistema nervoso central.

4. O anestésico interfere na atividade dos neurônios ou na comunicação entre circuitos nervosos.

5. Nos anestésicos locais, o bloqueio dos canais de sódio impede ou reduz a propagação dos sinais nervosos.

6. Na anestesia geral, medicamentos alteram a atividade de redes cerebrais relacionadas à consciência, percepção, memória e resposta aos estímulos.

7. Quando o efeito do medicamento diminui, a transmissão nervosa e a sensibilidade retornam progressivamente.

Em essência: o anestésico não precisa impedir que o tecido seja estimulado. Ele interfere no sistema nervoso para que os sinais de dor não sejam transmitidos normalmente ou não sejam percebidos conscientemente. Nos anestésicos locais, isso ocorre principalmente pelo bloqueio dos canais de sódio dos nervos; na anestesia geral, o efeito envolve alterações mais amplas na atividade cerebral.

Paulo Bravo

Paulo Bravo

CEO e Fundador do Blog Detalhe Curioso (2024). Além de criar conteúdos digitais desde 2024, sou formado em Contabilidade pela Faculdade de Economia da UAN. Criei o Detalhe Curioso para te ajudar com as Respostas de perguntas que despertam a sua Curiosidade.

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