Homem que fez a ‘foto mais vista da história’ explicou como conseguiu
Você já parou para pensar qual é a fotografia mais vista de toda a história da humanidade? A resposta provavelmente está bem perto de você, talvez até mesmo na tela do seu computador. A imagem em questão não é uma pintura famosa guardada em um museu e nem o registro de um grande acontecimento mundial. Trata-se de uma paisagem extremamente pacífica que, durante anos, serviu como o papel de parede padrão para milhões de computadores ao redor do planeta. Conhecida pelo nome de Bliss, ou Êxtase em tradução livre, essa imagem carrega uma trajetória curiosa e surpreendente.
O autor do registro é Charles Chuck O’Rear, um fotógrafo norte-americano que, em janeiro de 1996, viajava de carro para visitar Daphne Larkin, que na época era sua namorada e hoje é sua esposa. Ele dirigia por uma estrada entre St. Helena e o condado de Marin, na Califórnia, em um trajeto de aproximadamente cem quilômetros que corta colinas verdejantes e bucólicas.
Sempre atento e com o equipamento fotográfico por perto, O’Rear decidiu parar o veículo ao avistar a paisagem que se formava diante dele. O cenário exibia colinas suaves cobertas por uma grama viçosa, um céu intensamente azul com algumas nuvens brancas e uma iluminação natural delicada. A perfeição da cena era tanta que, com o passar dos anos, muitas pessoas passaram a acreditar que se tratava de uma montagem digital. No entanto, a verdade é que Bliss foi fotografada exatamente como a natureza se apresentava, sem qualquer tipo de filtro ou edição.
Para eternizar aquele momento, O’Rear utilizou uma câmera profissional Mamiya RZ67, carregada com filme colorido da marca Fuji e apoiada firmemente em um tripé. O uso de um filme de formato médio, com seis por sete centímetros, aliado a lentes de altíssima qualidade, foi fundamental para capturar a riqueza de cores e a nitidez impressionantes. Em um depoimento em vídeo para a Microsoft, o fotógrafo explicou que o resultado jamais seria o mesmo se tivesse utilizado uma câmera comum de trinta e cinco milímetros.
Naquele instante, o fotógrafo não fazia ideia do destino extraordinário que sua imagem teria. Ele enviou o registro para a Westlight, uma agência de bancos de imagens, onde o arquivo permaneceu guardado até 1998. Foi nesse período que a Microsoft, por meio do grupo Corbis fundado por Bill Gates, adquiriu o acervo da agência e, com ele, os direitos de exploração da fotografia.
A transação financeira rendeu a O’Rear uma quantia estimada na faixa inicial dos seis dígitos, ultrapassando a marca de cem mil dólares. O transporte do negativo original até a sede da empresa em Seattle foi uma verdadeira aventura. O valor do seguro para despachar uma imagem tão valiosa era proibitivo até mesmo para empresas de logística. A solução encontrada foi simples e direta: o próprio fotógrafo comprou uma passagem aérea, entregou o filme em mãos e ainda aproveitou uma viagem gratuita.
A partir de 2001, a imagem foi escolhida para ser o plano de fundo padrão do Windows XP, o sistema operacional que viria a dominar o mercado global de computadores. Para incontáveis pessoas ao redor do mundo, aquelas colinas verdes eram a primeira visão ao ligar a máquina, seja em ambientes corporativos, escolas ou residências. A fotografia se consolidou como um dos maiores símbolos visuais da revolução digital. Mesmo décadas depois, o cenário continua instantaneamente reconhecível. O sucesso estrondoso, contudo, pegou o próprio criador de surpresa. O’Rear dedicou vinte e cinco anos de sua carreira à prestigiada revista National Geographic, mas costuma brincar que ninguém jamais prestou muita atenção ao seu trabalho por lá, ao contrário do que aconteceu com a famosa paisagem.
A esposa do fotógrafo costuma reforçar a ironia com bom humor, dizendo que no túmulo do marido não mandarão escrever sobre seu passado na National Geographic, mas sim que ele foi o fotógrafo do Bliss. A brincadeira reflete uma realidade incontestável: poucas obras visuais na história conseguiram atingir um nível tão impressionante de familiaridade global.
Em viagens por países como Tailândia, Índia e Grécia, ou mesmo em grandes aeroportos internacionais, o casal frequentemente se depara com a imagem estampada em painéis publicitários, monitores antigos ou elementos decorativos. O fotógrafo costuma teorizar que qualquer pessoa com mais de quinze anos será capaz de se lembrar daquela paisagem pelo resto da vida.
O ponto exato onde a foto foi tirada também atrai a curiosidade de entusiastas. As colinas ficam situadas nas proximidades de Sonoma, na Califórnia, uma região célebre pela produção de vinhos. Com o passar dos anos, a área sofreu transformações profundas, com a expansão de plantações que alteraram permanentemente a vegetação nativa daquele trecho. Essa mudança confere à imagem um valor histórico ainda maior, pois ela funciona como um registro irrepetível de um momento efêmero da paisagem natural antes da forte intervenção humana.
Aos oitenta e um anos, O’Rear ainda recebe mensagens cotidianas sobre a fotografia. Para muitos admiradores, o cenário verdejante transcende a função de um mero papel de parede, funcionando como uma espécie de refúgio visual em meio à rotina acelerada. E embora a colina original tenha mudado de aspecto, a sua representação digital permanece viva, despertando nostalgia e encanto em várias gerações.
